Terminei de ler, há pouco, As Aventuras da Blitz (Ediouro, 2008), biografia da banda que ajudou a inaugurar o rock brasileiro dos anos 80. É mais uma amostra de que o mercado editorial brasileiro parece acordar, lentamente, para o fato de que o rock produzido aqui merece ter sua história contada.
De cara, o livro chama a atenção pelo projeto gráfico, ao mesmo tempo atual e inspirado na iconografia blitzniana, típica da década em que a banda estourou. Não por acaso, a parte visual da obra é de Luiz Stein, que criou, ao lado de um então iniciante Gringo Cardia (hoje, designer consagrado), as capas de discos, logomarcas e cenários da Blitz.
O texto de Rodrigo Rodrigues é leve e descontraído, no tom da música do grupo, embora seja às vezes confuso, com um vai-e-vem de fatos sem muita precisão.
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O mais importante é que o livro deixa claro o tamanho do fenômeno Blitz. Num mercado em que o rock brasileiro ainda era produto marginal (a despeito de sucessos isolados, como o de Raul Seixas), o primeiro compacto da banda, com Você Não Soube me Amar, vendeu perto de 1 milhão de cópias.
No parágrafo inicial deste texto, eu escrevi que a Blitz “ajudou” a inaugurar o rock brasileiro dos 80. É que não dá para ignorar o papel de uma banda parecida, mas diferente: a Gang 90. Ambas tinham um frontman carismático, vocais femininos, instrumental competente e introduziram a new wave no cenário musical do país.
A grande diferença estava naquela suave e complexa linha que determina o que é sucesso ou não. A Gang 90 forçou os limites estéticos do rock nacional, com letras ousadas, arranjos mais pesados e múltiplas referências, que iam do candomblé à beat generation. Talvez por isso tenha apenas roçado o sucesso, com uma música em trilha de novela global (Nosso Louco Amor). Para completar, antes do segundo disco, viu seu líder, Júlio Barroso, morrer de forma trágica, ao cair da janela de um apartamento em São Paulo.
Embora também arrojada esteticamente para os padrões da época, a Blitz era mais palatável ao gosto médio. Vendeu sem parar, apareceu em todos os palcos e programas de rádio e TV, estrelou comerciais, virou álbum de figurinhas e história em quadrinhos. Enfim, arrombou comercialmente as portas do mercado para o rock brasileiro. E logo no segundo ano de carreira (1982).
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Eis o triunfo e a tragédia da Blitz. Poucas bandas venderam tanto e tornaram-se tamanha referência, no Brasil, quanto a Legião Urbana. Mas, ao contrário do que ocorreu com Evandro Mesquita e cia., a carreira do grupo foi construída degrau a degrau e sem muitas das concessões habituais ao show business (alguém imaginaria Renato Russo vendendo um produto no intervalo da TV?). É o mesmo caso, em diferentes graus, de outras bandas que conheceram o sucesso ao longo dos 80’s ou 90’s, como Barão Vermelho, Paralamas e Titãs.
A explosão e ocaso da Blitz só têm paralelo posterior no RPM – os Mamonas Assassinas talvez repetissem a história, não fosse o acidente aéreo que pôs fim à vida de todos os seus integrantes.
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Por tudo isso, a Blitz merece um lugar especial na história do rock brasileiro, mas é vítima do próprio sucesso. Após três discos e uma breve carreira de cinco anos, a banda dissolveu-se, em meio a muito cansaço e disputas de egos, como o livro de Rodrigues deixa claro. Retornou em 1994 já com cara de nostalgia e, de lá para cá, sobrevive no que a obra define bem como “underground luxuoso”. Restaram três integrantes da formação clássica: o incansável Evandro Mesquita, o tecladista Billy Forghieri e o baterista Juba.
Foi essa Blitz que vi no palco do Music Hall em Belo Horizonte, no dia 11 deste mês, por coincidência enquanto lia o livro de Rodrigues. Era mais uma daquelas festas para celebrar os anos 80 (o revival da década, de tão persistente, já virou ele próprio uma categoria).
Sem o carisma de Fernanda Abreu e Márcia Bulcão e o vigor daqueles tempos, a banda soou, nas canções mais conhecidas, como cover de si mesma. Nas composições novas (sim, a Blitz programa um disco de inéditas), não conseguiu sustentar a atenção do público. É difícil competir com Você Não Soube me Amar, Weekend ou Mais Uma de Amor (Geme, Geme).
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A longevidade no rock tem um preço alto. O jovem Mick Jagger dizia não se ver cantando Satisfaction aos 40. Ainda canta, aos quase 66. Morrissey, nos anos 80, detonava o mesmo Jagger por insistir em permanecer nos palcos. Em maio deste ano, era o ex-vocalista dos Smiths que comemorava seus 50 anos com um show em Manchester. “Espero morrer antes de ficar velho”, cantava Pete Townsend em 1965 – e continua a cantar.
Segundo As Aventuras da Blitz, Evandro gostava de dizer que a preocupação da banda era com o “beijo na boca, e não com as bodas de prata”. Elas vieram em 2006 e, para o bem e para o mal, tocar ainda parece ter gosto de beijo na boca para os que mantêm a Blitz em atividade.