Ronaldo Pereira fala agora de sua atuação como produtor, do ótimo Supergroove e de como conheceu Gerson King Combo. Acima, uma pequena amostra ao vivo da parceria da banda com a lenda viva do soul brasileiro, na clássica Funk Brother Soul. No fim do post, a faixa O Q Que Vem, composição de Ronaldo e Black Alien (ex-Planet Hemp) que integrou o EP Supergroove, de 2005. Quem quiser conhecer melhor o trabalho dele, pode acessar as páginas do My Space dedicadas ao Supergroove, ao King Combo, ao resgate do Movimento Black Rio e ao próprio Ronaldo Pereira. O contato de seu atual selo/produtora, Copa Soul, é e.groove@terra.com.br.
Farolblog – Atualmente, você integra o Supergroove, banda que tem os dois pés na música negra. Que caminho você percorreu do Finis Africae ao Supergroove e qual é a marca do som de seu grupo atual?
Ronaldo Pereira – O Finis continuou mais dois anos depois do Neto e Zezinho terem saído, no final de 88. Quando a banda acabou, fui trabalhar em rádios e com produção musical, montei um estúdio/selo no Rio Comprido, o Studio Groove, e produzi e lancei os CDs da banda Cabeça e a coletânea Grooves From Rio, que em 96 revelava o talento do rapper Black Alien e de minha primeira banda com um pezão na black music, a Falso Inglês.
Nessa época, também fiz a produção musical dos CDs das bandas de rock Beach Lizards e Dash, alem de ter gravado e excursionado como baterista com a banda Second Come.
Em 95, comecei a empresariar o Planet Hemp, que fez seus primeiro ensaios no Studio Groove e tinha na sua formação inicial três grandes amigos meus, o baixista Formigão, o batera Bacalhau e o vocalista Skunk. Trabalhei com os caras até final de 98, fazendo tambem a produção executiva dos três primeiros CDs da banda.
Em 99, voltamos com a formação carioca do Finis, produzi e lançei um CD ao vivo e um EP com remixes. Montei o projeto Anos 80 Rock Brasil, pelo qual o Finis excursionou por três anos ao lado de Zero, Hojerizah, Violeta de Outono, Black Future e Uns e Outros. Nessa época, tambem empresariei as bandas Ultramen, Autoramas e Baia e os Rock Boys.
Em 2004, montei a Supergroove e o selo/produtora CopaSoul, e chamei a vocalista Barbara Lau e o guitarrista Heitor Nascimento para gravar o primeiro EP, de 2005. Com um som black mais com bases eletrônicas e muitos instrumentos, o disco tem seis músicas e a participação do Gerson King Combo e do Black Alien. Em 2007, lançamos o maxi single Funk Original e entramos de cabeça no soul brasileiro, nos apresentando nos bailes tradicionais e nas novas festas blacks do Rio.
Com a saída da vocalista Barbara Lau no final de 2008, passamos a ter a honra e o imenso prazer de acompanhar o King Combo.
Você também produz o Gerson King Combo. Como chegou a ele? Como é trabalhar com um pioneiro do ritmo no Brasil? Além do DVD ao vivo, o que vem por aí dessa parceria?
Ouvi o Rei pela primeira vez em 81, em Brasília, e pirei. Que som era aquele? Acho que a música era Funk Brother Soul, essa mistura louca do soul com um vocal meio falado, que me soou como uma grande descoberta e que, na verdade, andava lado a lado com o que estava rolando nos EUA, com o inicio do rap. Conheci pessoalmente o Gerson em 2004 e logo chamei pra gravar uma versão que fiz pra Hora de União, da Lady Zu, que saiu no EP da Supergroove.
Adoro o Gersão, figura do bem, ele é a historia viva da música black brasileira, suas histórias emocionam. Estamos na difícil fase de finalização de um produto independente no Brasil, talvez saia antes um CD ao vivo, vamos aguardar.
O que você anda ouvindo sem parar? O que acha da atual música pop do Brasil? A cena musical de hoje é mais fértil do que aquela dos anos 80, da qual o Finis Africae participou?
Parece resposta pronta, ouço de tudo um pouco, mas ouço todo dia. Atualmente ataco como DJ também, e ando ouvindo muito o que estou tocando na noite, ou seja, black music em geral e muito samba rock, uma paixão antiga iniciada ainda na infância com os discos do Jorge Ben.
Da galera nova, gosto muito do CD do Márcio Local e do Curumim, mas também estou achando bacana ouvir novamente rock brasileiro dos anos 70, tipo Joelho de Porco, Lee Jackson e outras maluquices que você só encontra na década pirada da música brasileira, em que tudo era permitido.
Também gosto muito de música eletrônica, principalmente aquela que se mistura com os instrumentos convencionais.
Quero sempre acreditar que coisas novas e boas vão pintar no mercado brasileiro, sinto mais falta da revolução que o Chico Science e a Nação Zumbi fizeram nos anos 90 do que das bandas dos anos 80.
Além de King Combo, que outras lendas do black brasileiro, em sua opinião, merecem ter seu trabalho resgatado? E a quantas anda seu projeto sobre o Movimento Black Rio?
Pois é, Carlos Dafé, Gerson King Combo e Tony Bizarro estão na ativa, a nova banda Black Rio e o Hyldon também estão. Em São Paulo, tem a Lady Zu, que está fazendo shows. Até que o momento é bom para um resgate maior do Black Brasil. Bandas como o Instituto, com o projeto Instituto Racional, renovam o repertório de Tim Maia e apresentam nomes como Carlos Dafé e Markú Ribas para as novas gerações.
O Supergroove vai pelo mesmo caminho, queremos colocar um punch no velho e potente balanço de King Combo. Hyldon também fez alguns shows com a banda de rock carioca Quinho e os Caras. Só sinto falta da genialidade criativa de Cassiano…
O projeto Movimento Black Rio tem o propósito de resgatar essa galera tão importante pra música brasileira e o movimento que lançou a maioria deles, e que se tornou um dos capítulos mais obscuros dos movimentos sociais no Rio e da recente música popular brasileira. Ninguém sabe muito dessa história, tem pouca coisa escrita sobre o assunto e muitas dúvidas.
Fiquei instigado em buscar respostas, tanta gente reunida nos bailes dos anos 70, ate 10 mil por baile, com roupas extravagantes pra época, e na sua maioria negros e mestiços. Como a mídia e o governo militar demoraram tanto pra perceber esse movimento nos subúrbios do Rio? Foi preciso que uma jornalista, Lena Frias, em matéria publicada pelo Jornal do Brasil em 1976, deflagrasse um movimento que já acontecia pelo menos há seis anos.
Eu e o produtor/DJ Zé Octávio fizemos a primeira edição no SESC Madureira em 2008, com shows, filmes, exposições, debates, bailes, feira e desfile. Já estamos agendando a próxima edição, em local a ser definido, pra segunda metade de 2009.
Supergroove – O Q Que Vem