Capa do EP Finis Africae, de 1986
Ele está sempre nos bastidores, seja na produção ou sentado atrás de uma bateria, mas seu trabalho consegue a façanha de unir quatro décadas do melhor pop brasileiro. Ele é Ronaldo Pereira, nome comum, mas com trajetória nada banal. Nos anos 80, foi baterista do Finis Africae, talvez a melhor banda da segunda geração do rock brasiliense; nos 90, foi produtor executivo do Planet Hemp, sem deixar de fazer música; nestes 00, produz e toca no Supergroove, banda carioca que mistura soul e eletrônica.
A quarta década mencionada é a de 70, quando Ronaldo era só um menino, mas que ele traz de volta nas formas de uma parceria com a lenda viva do soul brasileiro, Gerson King Combo (que vai render um DVD ao vivo), e do resgate do Movimento Black Rio, por meio de um projeto que terá a segunda edição ainda este ano.
Foi Ronaldo que achou o Farolblog, por causa de uma incrível coincidência. Ele deparou-se com dois posts do velho Farol, em sequência, que tratavam exatamente de Finis Africae e Gerson King Combo. Qual não foi minha surpresa quando vi o e-mail do Ronaldo, que mencionou a coincidência e falou do Supergroove, que eu não conhecia.
Nada melhor, então, que deixá-lo falar. Na primeira entrevista do Farolblog, dividida neste e no próximo post, Ronaldo Pereira conta por que o LP Finis Africae (1987) não confirmou as expectativas criadas pelo EP também homônimo de 1986, fala da parceria com Planet Hemp e Gerson King Combo e cita nomes e mais nomes que vale muito a pena ouvir.
No fim deste post, Armadilha, com o Finis Africae em 1986.
Farolblog - Ronaldo, ouvi Finis Africae pela primeira vez em meados dos anos 80, num dos melhores programas de rock que o rádio de Belo Horizonte já teve, o Fahrenheit, apresentado pelo Arthur Duarte na saudosa Liberdade FM. Ele tocou o EP independente de vocês. Eu ainda era um adolescente e fiz logo uma ligação do Finis com outros sons soturnos que eu amava (e ainda amo). Quando saiu o LP, por uma grande gravadora, foi uma decepção para mim. Os climas estranhos e as distorções desapareceram para dar lugar a um som limpo e suingado. Ficou só a voz grave do vocalista Eduardo Moraes. Na época, não tive a sensibilidade de perceber a influência black. Mesmo assim, o que houve entre o EP e o LP? A mudança de som foi deliberada ou a produção forçou a mão para um lado só?
Ronaldo Pereira - Ficamos quase três meses gravando o LP pela EMI e um pouco mais de uma semana para gravar o EP independente. Acho que são três os motivos para o LP ainda hoje soar pior que o EP:
1 – Na minha opinião, perdemos um pouco a mão na gravação do LP, ou seja, acabamos perdendo o conceito inicial do álbum, pela demora na conclusão dos trabalhos. Acabou ficando tudo muito igual, perdemos a nuance que existia no EP.
2 – Naquela época, final de 86, estávamos vivendo um período muito louco, viajávamos muito.
3 – Ainda por cima, quem ia produzir o LP era o Renato Russo, mas acabou que ele se enrolou e o Mayrton [Bahia, produtor dos discos da Legião] acabou produzindo.
Quais eram as influências do Finis Africae?
Desde o inicio, em 84, queríamos misturar nossas principais influências no nosso som, mas nunca foi muito fácil, pois gostávamos muito da atitude do punk e pós-punk e do som de algumas bandas do movimento, mas também gostávamos bastante do soul e do funk, que na maioria das vezes não se encaixavam com a rigidez do punk rock.
Mas, bem no início da banda, tínhamos algumas músicas no estilo punk funk, na linha de Gang of Four e A Certain Ratio.
O Finis Africae talvez tenha sido a melhor banda brasiliense da geração posterior à da Legião Urbana, Plebe Rude e Capital Inicial, mas não caiu nas graças do grande público. Você acha que, no cenário atual, com os meios de distribuição facilitados pela internet, a carreira do grupo teria melhor sorte?
Realmente fico na dúvida, não sei nem como a banda chegou onde chegou, sempre fomos do contra. Enquanto as bandas de Brasília faziam um pós-punk sujo e rápido, o Finis tinha músicas lentas e suingadas. Enquanto a Plebe, Legião, Escola [de Escândalos] e Capital tinham letras politizadas, nós tínhamos letras românticas e com referências literárias.
Quando mudamos pro Rio em 86, também não encontramos uma tribo com a nossa cara, rolava na época o rock de bermudas, nada a ver com o Finis. Só a galera da Lapa, o Black Future principalmente, que se afinava com a gente.
(A entrevista continua no próximo post. Por enquanto, uma amostra do Finis Africae de 1986, com a bela Armadilha)
Finis Africae – Armadilha
