2/July/2009

Do Finis ao Combo (2)

Ronaldo Pereira fala agora de sua atuação como produtor, do ótimo Supergroove e de como conheceu Gerson King Combo. Acima, uma pequena amostra ao vivo da parceria da banda com a lenda viva do soul brasileiro, na clássica Funk Brother Soul. No fim do post, a faixa O Q Que Vem, composição de Ronaldo e Black Alien (ex-Planet Hemp) que integrou o EP Supergroove, de 2005. Quem quiser conhecer melhor o trabalho dele, pode acessar as páginas do My Space dedicadas ao Supergroove, ao King Combo, ao resgate do Movimento Black Rio e ao próprio Ronaldo Pereira. O contato de seu atual selo/produtora, Copa Soul, é e.groove@terra.com.br.

Farolblog – Atualmente, você integra o Supergroove, banda que tem os dois pés na música negra. Que caminho você percorreu do Finis Africae ao Supergroove e qual é a marca do som de seu grupo atual?

Ronaldo Pereira – O Finis continuou mais dois anos depois do Neto e Zezinho terem saído, no final de 88. Quando a banda acabou, fui trabalhar em rádios e com produção musical, montei um estúdio/selo no Rio Comprido, o Studio Groove, e produzi e lancei os CDs da banda Cabeça e a coletânea Grooves From Rio, que em 96 revelava o talento do rapper Black Alien e de minha primeira banda com um pezão na black music, a Falso Inglês.

Nessa época, também fiz a produção musical dos CDs das bandas de rock Beach Lizards e Dash, alem de ter gravado e excursionado como baterista com a banda Second Come.

Em 95, comecei a empresariar o Planet Hemp, que fez seus primeiro ensaios no Studio Groove e tinha na sua formação inicial três grandes amigos meus, o baixista Formigão, o batera Bacalhau e o vocalista Skunk. Trabalhei com os caras até final de 98, fazendo tambem a produção executiva dos três primeiros CDs da banda.

Em 99, voltamos com a formação carioca do Finis, produzi e lançei um CD ao vivo e um EP com remixes. Montei o projeto Anos 80 Rock Brasil, pelo qual o Finis excursionou por três anos ao lado de Zero, Hojerizah, Violeta de Outono, Black Future e Uns e Outros. Nessa época, tambem empresariei as bandas Ultramen, Autoramas e Baia e os Rock Boys.

Em 2004, montei a Supergroove e o selo/produtora CopaSoul, e chamei a vocalista Barbara Lau e o guitarrista Heitor Nascimento para gravar o primeiro EP, de 2005. Com um som black mais com bases eletrônicas e muitos instrumentos, o disco tem seis músicas e a participação do Gerson King Combo e do Black Alien. Em 2007, lançamos o maxi single Funk Original e entramos de cabeça no soul brasileiro, nos apresentando nos bailes tradicionais e nas novas festas blacks do Rio.

Com a saída da vocalista Barbara Lau no final de 2008, passamos a ter a honra e o imenso prazer de acompanhar o King Combo.

Você também produz o Gerson King Combo. Como chegou a ele? Como é trabalhar com um pioneiro do ritmo no Brasil? Além do DVD ao vivo, o que vem por aí dessa parceria?

Ouvi o Rei pela primeira vez em 81, em Brasília, e pirei. Que som era aquele? Acho que a música era Funk Brother Soul, essa mistura louca do soul com um vocal meio falado, que me soou como uma grande descoberta e que, na verdade, andava lado a lado com o que estava rolando nos EUA, com o inicio do rap. Conheci pessoalmente o Gerson em 2004 e logo chamei pra gravar uma versão que fiz pra Hora de União, da Lady Zu, que saiu no EP da Supergroove.

Adoro o Gersão, figura do bem, ele é a historia viva da música black brasileira, suas histórias emocionam. Estamos na difícil fase de finalização de um produto independente no Brasil, talvez saia antes um CD ao vivo, vamos aguardar.

O que você anda ouvindo sem parar? O que acha da atual música pop do Brasil? A cena musical de hoje é mais fértil do que aquela dos anos 80, da qual o Finis Africae participou?

Parece resposta pronta, ouço de tudo um pouco, mas ouço todo dia. Atualmente ataco como DJ também, e ando ouvindo muito o que estou tocando na noite, ou seja, black music em geral e muito samba rock, uma paixão antiga iniciada ainda na infância com os discos do Jorge Ben.

Da galera nova, gosto muito do CD do Márcio Local e do Curumim, mas também estou achando bacana ouvir novamente rock brasileiro dos anos 70, tipo Joelho de Porco, Lee Jackson e outras maluquices que você só encontra na década pirada da música brasileira, em que tudo era permitido.

Também gosto muito de música eletrônica, principalmente aquela que se mistura com os instrumentos convencionais.

Quero sempre acreditar que coisas novas e boas vão pintar no mercado brasileiro, sinto mais falta da revolução que o Chico Science e a Nação Zumbi fizeram nos anos 90 do que das bandas dos anos 80.

Além de King Combo, que outras lendas do black brasileiro, em sua opinião, merecem ter seu trabalho resgatado? E a quantas anda seu projeto sobre o Movimento Black Rio?

Pois é, Carlos Dafé, Gerson King Combo e Tony Bizarro estão na ativa, a nova banda Black Rio e o Hyldon também estão. Em São Paulo, tem a Lady Zu, que está fazendo shows. Até que o momento é bom para um resgate maior do Black Brasil. Bandas como o Instituto, com o projeto Instituto Racional, renovam o repertório de Tim Maia e apresentam nomes como Carlos Dafé e Markú Ribas para as novas gerações.

O Supergroove vai pelo mesmo caminho, queremos colocar um punch no velho e potente balanço de King Combo. Hyldon também fez alguns shows com a banda de rock carioca Quinho e os Caras. Só sinto falta da genialidade criativa de Cassiano…

O projeto Movimento Black Rio tem o propósito de resgatar essa galera tão importante pra música brasileira e o movimento que lançou a maioria deles, e que se tornou um dos capítulos mais obscuros dos movimentos sociais no Rio e da recente música popular brasileira. Ninguém sabe muito dessa história, tem pouca coisa escrita sobre o assunto e muitas dúvidas.

Fiquei instigado em buscar respostas, tanta gente reunida nos bailes dos anos 70, ate 10 mil por baile, com roupas extravagantes pra época, e na sua maioria negros e mestiços. Como a mídia e o governo militar demoraram tanto pra perceber esse movimento nos subúrbios do Rio? Foi preciso que uma jornalista, Lena Frias, em matéria publicada pelo Jornal do Brasil em 1976, deflagrasse um movimento que já acontecia pelo menos há seis anos.

Eu e o produtor/DJ Zé Octávio fizemos a primeira edição no SESC Madureira em 2008, com shows, filmes, exposições, debates, bailes, feira e desfile. Já estamos agendando a próxima edição, em local a ser definido, pra segunda metade de 2009.

Supergroove – O Q Que Vem

2/July/2009

Do Finis ao Combo (1)

finis
Capa do EP Finis Africae, de 1986

Ele está sempre nos bastidores, seja na produção ou sentado atrás de uma bateria, mas seu trabalho consegue a façanha de unir quatro décadas do melhor pop brasileiro. Ele é Ronaldo Pereira, nome comum, mas com trajetória nada banal. Nos anos 80, foi baterista do Finis Africae, talvez a melhor banda da segunda geração do rock brasiliense; nos 90, foi produtor executivo do Planet Hemp, sem deixar de fazer música; nestes 00, produz e toca no Supergroove, banda carioca que mistura soul e eletrônica.

A quarta década mencionada é a de 70, quando Ronaldo era só um menino, mas que ele traz de volta nas formas de uma parceria com a lenda viva do soul brasileiro, Gerson King Combo (que vai render um DVD ao vivo), e do resgate do Movimento Black Rio, por meio de um projeto que terá a segunda edição ainda este ano.

Foi Ronaldo que achou o Farolblog, por causa de uma incrível coincidência. Ele deparou-se com dois posts do velho Farol, em sequência, que tratavam exatamente de Finis Africae e Gerson King Combo. Qual não foi minha surpresa quando vi o e-mail do Ronaldo, que mencionou a coincidência e falou do Supergroove, que eu não conhecia.

Nada melhor, então, que deixá-lo falar. Na primeira entrevista do Farolblog, dividida neste e no próximo post, Ronaldo Pereira conta por que o LP Finis Africae (1987) não confirmou as expectativas criadas pelo EP também homônimo de 1986, fala da parceria com Planet Hemp e Gerson King Combo e cita nomes e mais nomes que vale muito a pena ouvir.

No fim deste post, Armadilha, com o Finis Africae em 1986.

Farolblog - Ronaldo, ouvi Finis Africae pela primeira vez em meados dos anos 80, num dos melhores programas de rock que o rádio de Belo Horizonte já teve, o Fahrenheit, apresentado pelo Arthur Duarte na saudosa Liberdade FM. Ele tocou o EP independente de vocês. Eu ainda era um adolescente e fiz logo uma ligação do Finis com outros sons soturnos que eu amava (e ainda amo). Quando saiu o LP, por uma grande gravadora, foi uma decepção para mim. Os climas estranhos e as distorções desapareceram para dar lugar a um som limpo e suingado. Ficou só a voz grave do vocalista Eduardo Moraes. Na época, não tive a sensibilidade de perceber a influência black. Mesmo assim, o que houve entre o EP e o LP? A mudança de som foi deliberada ou a produção forçou a mão para um lado só?

Ronaldo Pereira - Ficamos quase três meses gravando o LP pela EMI e um pouco mais de uma semana para gravar o EP independente. Acho que são três os motivos para o LP ainda hoje soar pior que o EP:

1 – Na minha opinião, perdemos um pouco a mão na gravação do LP, ou seja, acabamos perdendo o conceito inicial do álbum, pela demora na conclusão dos trabalhos. Acabou ficando tudo muito igual, perdemos a nuance que existia no EP.

2 – Naquela época, final de 86, estávamos vivendo um período muito louco, viajávamos muito.

3 – Ainda por cima, quem ia produzir o LP era o Renato Russo, mas acabou que ele se enrolou e o Mayrton [Bahia, produtor dos discos da Legião] acabou produzindo.

Quais eram as influências do Finis Africae?

Desde o inicio, em 84, queríamos misturar nossas principais influências no nosso som, mas nunca foi muito fácil, pois gostávamos muito da atitude do punk e pós-punk e do som de algumas bandas do movimento, mas também gostávamos bastante do soul e do funk, que na maioria das vezes não se encaixavam com a rigidez do punk rock.

Mas, bem no início da banda, tínhamos algumas músicas no estilo punk funk, na linha de Gang of Four e A Certain Ratio.

O Finis Africae talvez tenha sido a melhor banda brasiliense da geração posterior à da Legião Urbana, Plebe Rude e Capital Inicial, mas não caiu nas graças do grande público. Você acha que, no cenário atual, com os meios de distribuição facilitados pela internet, a carreira do grupo teria melhor sorte?

Realmente fico na dúvida, não sei nem como a banda chegou onde chegou, sempre fomos do contra. Enquanto as bandas de Brasília faziam um pós-punk sujo e rápido, o Finis tinha músicas lentas e suingadas. Enquanto a Plebe, Legião, Escola [de Escândalos] e Capital tinham letras politizadas, nós tínhamos letras românticas e com referências literárias.

Quando mudamos pro Rio em 86, também não encontramos uma tribo com a nossa cara, rolava na época o rock de bermudas, nada a ver com o Finis. Só a galera da Lapa, o Black Future principalmente, que se afinava com a gente.

(A entrevista continua no próximo post. Por enquanto, uma amostra do Finis Africae de 1986, com a bela Armadilha)

Finis Africae – Armadilha

28/June/2009

Michael Jackson não morreu

Michael Jackson nunca fez muito a minha cabeça, embora até meados dos anos 80 tenha produzido algumas canções magníficas e um álbum que é parte da história da música pop. De lá para cá, o estranho ser humano que ele foi suplantou o artista e fez a alegria da mídia, essa mesma que agora chora sua falta, mas fartou-se durante anos com sua desgraça.

Tudo em torno dele foi tão bizarro que vale registrar a tese da Daniela, irmã do autor deste blog: Michael Jackson não morreu, mas simulou a própria morte. E com a ajuda do seu médico particular, suspeito de aplicar uma dose excessiva de remédios no astro. Só assim MJ poderia, finalmente, viver em paz.

Isso faz lembrar outra vítima da fama: Elvis Presley. Também no caso dele houve a decadência física, as drogas de farmácia, um médico oportunista e a comoção mundial.

Por isso, é impossível não pensar na personagem que une os dois dramas. Lisa Presley é filha de Elvis e ex-mulher de Jackson. Sob o ponto de vista da tese da Daniela, as declarações dela após a morte do ex-marido são incríveis. Lisa contou que a maneira como Elvis morreu chamava a atenção de MJ e que o autor de Thriller achava que ia partir do mesmo jeito.

Como todo mundo sabe que “Elvis não morreu”, Jackson poderia estar interessado não na morte do rei do rock, mas em reproduzir seu falso fim.

Só não dá para imaginar o mesmo destino. Elvis foi viver anônimo num subúrbio da Argentina. Assim que a poeira de sua morte baixar, o que fará Michael Jackson?

(Viagens à parte, o melhor texto que li sobre a morte de MJ foi – quem diria? – o do ex-jornalista e crítico musical Paulo Ricardo, aquele mesmo do RPM, um sobrevivente da fama. É este aqui, publicado na Folha de S. Paulo, com link disponível, infelizmente, só para assinantes do jornal ou do UOL. Paulo Ricardo também acha que MJ não morreu. Estava morto há muito tempo, assim como Elvis)

Atualização: o post original atribuía a tese da “não morte” de MJ à Mariana, primeira-dama deste blog. Foi confusão minha, de tanto ouvir falar do cara. A tese é da Daniela, conforme corrigido acima.

27/June/2009

Tocadiscos 9

Após um longo mês cuidando das tarefas enjoadas da vida que não incluem música, nada como voltar com um pouco de beleza e distorção. A irlandesa My Bloody Valentine foi uma das mais interessantes e estranhas bandas do fim do século passado, pioneira do gênero conhecido como shoegaze, literalmente “encarar os sapatos”. É aquela turma que gosta de fazer barulho e parece estar num universo à parte no palco, olhando para baixo e nem aí para a platéia.

 My Bloody Valentine – Slow

22/May/2009

Tocadiscos 8

 

 

Em homenagem aos 50 anos, hoje, do maior inglês vivo. Steven Patrick Morrissey, claro.

12/May/2009

Arqueologia 6

Gang 90 – Lilik Lamê

Gang 90 - compacto frente
Capa do compacto da Gang 90

 

Nunca o nome desta seção foi tão adequado. Achar Lilik Lamê foi para mim como imagino que seja para um arqueólogo achar um daqueles ossinhos que dizem algo sobre alguém ou sobre uma civilização inteira. Com a diferença de que Lilik não é um ossinho, é um esqueleto inteiro. Ou melhor, é um corpo vivo – na arte, é possível roçar a eternidade, como jamais o é na vida (a arte é longa e a vida é breve, não é mesmo?).

A pouco conhecida Lilik Lamê é o lado B do compacto que trouxe ao mundo, em 1981, a Gang 90, banda inaugural do rock brasileiro contemporâneo. Para encurtar o caminho, basta dizer que o Brasil não seria o mesmo sem aquela geração; que aquela geração não teria existido sem a Gang 90; que, mesmo na hipótese de aquela geração ter insistido em existir, não teria o mesmo brilho sem a Gang 90.

No lado A do compacto, está a clássica Perdidos na Selva, na gravação original, diferente da que aparece no LP Essa tal de Gang 90 & as Absurdettes (1983). Mas o desafio era achar Lilik Lamê. Procurei anos por ela, que ouvi pela primeira vez em meados dos 80’s, no programa Rock Molotov, um caleidoscópio musical do Brasil que Marcelo Dolabela apresentava na saudosa Liberdade FM, em Belo Horizonte.

Na era pré-internet, a busca foi em sebos de discos e coleções de amigos. Depois, achei que ia ser fácil topar com ela num blog ou no Soulseek, mas que nada. Fiz pesquisas detalhadas e insistentes, sem sucesso. E eis que sem querer, como um arqueólogo sortudo, trombo com Lilik Lamê no ótimo Pirata do Rock (o caminho das pedras para o compacto da Gang 90 está aqui). 

***

Lilik Lamê é uma versão em português, nada literal, de Christine, de Siouxsie and the Banshees. A psicopata do original vira uma personagem urbana interessante e decadente na recriação de Júlio Barroso (líder da Gang), Antônio Carlos Miguel e Katy. A música é mais elétrica e mais lenta, quase sensual. 

Coisa típica de Júlio, na melhor tradição antropofágica brasileira iniciada pelos índios caetés e seguida por Oswald de Andrade e os tropicalistas, entre outros. Num movimento parecido, a Gang transformou I Know But I Don’t Know, do Blondie, em Eu Sei Mas Eu Não Sei (no álbum de 1983). Isto sem falar das criações próprias da Gang, que superam as versões.

A voz principal em Lilik Lamê é de Lonita Renaux, codinome da irmã de Júlio, Denise Barroso, que morreu alguns anos depois dele. Também estavam lá e não estão mais por aqui Gigante Brazil, na bateria, e Wander Taffo, na guitarra. Continuam por aqui, até onde sei, May East, Alice Pink Pank, Lee Marcucci, Luíza Maria e Guilherme Arantes, ele mesmo, que toca teclados e é o responsável pelos arranjos e direção musical do disco. 

Júlio canta em Perdidos na Selva e, nos créditos, é apontado como o responsável pelo “design poético” do compacto. Coisas dos 80’s. 

Em 6 de junho, vai fazer 25 anos que Júlio Barroso morreu, com apenas 30 de idade.

Gang 90 – Lilik Lamê

20/April/2009

Arqueologia 5

Subterranean Homesick Blues

 

Uma das primeiras canções elétricas de Bob Dylan, um dos primeiros videoclipes modernos da história, uma das melhores músicas do cara. Todos esses atributos estão colados para sempre a Subterranean Homesick Blues.

Eu sou de uma geração para a qual o videoclipe era uma obsessão (hoje não é mais). Tinha para todos os gostos, dos mais belos aos mais toscos, dos mais quadrados aos mais ousados. Mas a primeira vez que vi o de Subterranean Homesick Blues fiquei chapado, ainda que tivesse sido produzido tanto tempo atrás.

Atualmente, Bob Dylan é tão comum quanto um fato qualquer da natureza, mas tente imaginar o que significou fazer um clipe desses há 44 anos. Por isso e por outros motivos, o sujeito virou a música pop de cabeça para baixo. Se hoje qualquer rodinha de violão costuma ter uma daquelas músicas da Legião Urbana sem refrão, mas que viraram sucesso popular, é graças em boa parte a Bob Dylan. Ele influenciou até Beatles e Stones – Rubber Soul e Beggars Banquet que o digam. E Subterranean Homesick Blues continua a render frutos, alguns deles explícitos.

A letra é um fluxo de palavras típico de Dylan, um turbilhão em pouco mais de dois minutos, com referências a LSD, luta por direitos civis e o escambau. Mais sobre a letra, a música e o vídeo na Wikipedia e no All Music.

Abaixo, três versões do clipe, que apareceu originalmente num documentário sobre uma turnê de Dylan na Inglaterra. As duas primeiras têm a participação luxuosa do poeta Allen Ginsberg, o barbudo no canto esquerdo do vídeo. A “alma beat”, aliás, permeia clipe, letra e música. O título pode ter sido inspirado em Subterraneans (Subterrâneos, no Brasil), livro magnífico de Jack Kerouac, bem melhor que o chato e tão incensado On The Road.

Subterranean Homesick Blues foi lançada no álbum Bringing It All Back Home, de 1965.

 

Subterranean Homesick Blues no beco…

… no parque…

…e no terraço

19/April/2009

Tocadiscos 7

 

Nunca sei se esta é uma canção de resistência ou desistência. Mas é boa demais.

Inocentes - Ele Disse Não

5/April/2009

Nó na cabeça

 

 

Aquele dia nunca saiu da minha memória. O rádio-gravador apoiado, como sempre, no bidê da velha casa da rua Juacema, e eu trancado no banheiro. Na mesma posição, ouvi pela primeira ou enésima vez um monte de canções que marcaram minha vida. Mas naquele dia de, talvez, 1991, uma delas deu um nó na minha cabeça.

O que aquele tanto de barulho estava fazendo numa das diversas rádios caretas que assombravam (e ainda assombram) o espectro da FM belo-horizontina? Àquela altura, aos 20 anos, achava que nunca ouviria nada tão excitante quanto as músicas que tinha aprendido a amar na década anterior. O mundo tinha acabado, claro, eu tinha só 20 anos. O rock tinha acabado. Eu passaria o resto dos meus dias ouvindo coisas que a cada dia ficariam mais velhas.

***

Mas aquele tanto de barulho deu um nó na minha cabeça. Não era punk propriamente; não era pós-punk; tinha um quê incômodo, para mim, de anos 70. Mas eu gostei daquilo e passei os dias seguintes procurando a mesma música no dial. Não havia internet; a rádio Liberdade, ícone do rock alternativo dos 80’s em Belo Horizonte, não era mais a mesma; os meus ídolos tinham morrido ou virado farofa.

Quem tem 20 anos, hoje, não imagina a entressafra que a música pop vivia naquele momento. Como na revolução punk, 15 anos antes, os três acordes e o barulho salvaram o rock.

Smells Like Teen Spirit foi o recomeço e deu um nó na minha cabeça. Me fez sair correndo para comprar Nevermind. Mas aí não gostei tanto do disco. Criei uma implicância especial com Nirvana, achava um saco as crises do Kurt Cobain, mas nunca deixei de ouvir Smells Like Teen Spirit e Come As You Are (”And I swear that I don’t have a gun”).

***

Quando Cobain teve uma arma, fez o que parecia inevitável, afinal. Num 5 de abril, há exatos 15 anos. Na época, achei tosco, não tive sensibilidade para captar o quanto aquele cara tinha mudado o mesmo mundo que, um pouco antes, parecia acabado para mim. Um nó na cabeça. O meu suicida favorito, Ian Curtis, enfim tinha concorrência à altura. Levei tempo para perceber isso e entender o tamanho e a importância de Kurt Cobain e do Nirvana.

Acho que hoje continuo ouvindo bons barulhos um pouco por causa dele. Nada era mais inadequado naquele momento que um mártir, mas ele existiu e ocupou um espaço tremendo e incômodo. Deu um nó na cabeça.

5/April/2009

Celly, a primeira (3)

 

capa-01

 

Em 1976, Celly Campello gravou um disco homônimo, seu último de inéditas. Uma das faixas é um inevitável medley de Estúpido Cupido e Banho de Lua. O restante do disco, no entanto, foi uma surpresa para mim, que só o conheci agora.

Esperava canções dos anos 60 recauchutadas, mas encontrei uma artista em sintonia com seu tempo. Sintonia um tanto quanto perigosa, é verdade. Os anos 70 eram perigosos. Muita coisa do disco soa mais cafona e datada que os rockinhos do início da carreira.

***

O álbum tem canções que lembram de Beach Boys a Carpenters, com um quê de MPB difícil de explicar, mas que está lá; tem country, na engraçada Alguém é Bobo de Alguém, na recriação de Jolene, de Dolly Parton (!), e no figurino que Celly usa na foto da capa (acima); tem até disco music, em Vamos Começar Tudo Outra Vez (abaixo), inusitada gravação em português para Right Back Where We Started From, da cantora britânica Maxine Nightingale. Falando assim, não quer dizer nada. Mas quem já perdeu tempo na frente da TV vendo Amaury Jr. vai reconhecer a música.

No disco de 1976, Celly equilibra-se naquela corda bamba entre o brilhante e o brega, frequentada por outros artistas centrais do pop brasileiro, como Roberto Carlos, Tim Maia, Raul Seixas e Renato Russo.

***

Celly morreu muito jovem, em 2003, aos 60 anos, após uma luta de altos e baixos contra o câncer. Na ocasião, o site Whiplash fez uma homenagem que é um dos melhores entre os poucos links com informações sobre a cantora na internet.

O rock brasileiro teve sua pré-história. Mas não é exagero dizer que a história começou com ela, a primeira a fazer do rock em português (ainda que em versões do inglês) um fênomeno social, antes mesmo da Jovem Guarda.

Celly Campello – Vamos Começar Tudo Outra Vez